Redação Física

 

28 de março

 
Redação Física

Redação Física – A/ À distância

 

Você sabe quando usar o acento grave?

Por Orlando Nunes

- Assistiu ao jogo à distância de dois metros do campo de futebol.

- Assistiu ao jogo a distância.

Na primeira frase, como a expressão à distância vem especificada (dois metros), ocorre sempre a sinalização da crase. No segundo exemplo, sem a determinação da distância, o uso do acento grave (`) é facultativo, mas aconselhável quando desfizer ambiguidade.

A GRANDE DISTÂNCIA

- Assistiu ao jogo a grande distância, ou seja, Assistiu ao jogo a (uma) grande distância.

Neste caso, sem crase. Há subentendido o artigo indefinido “uma”.

MARCAR A/À DISTÂNCIA

Frase ambígua – Volante marcou a distância (a distância foi marcada, determinada pelo volante, ou ele marcou (o atacante adversário, por exemplo) de uma certa distância?).

Frase não ambígua – Volante marcou à distância (a marcação foi realizada mantendo-se certa distância entre marcador e marcado).

ENSINO A/À DISTÂNCIA

Ensino a distância (frase corretíssima). Agora, se quem escreve teme, digamos, que o leitor vá compreender no enunciado algo como “alguém ensina uma determinada distância a alguém”, vai optar pelo uso do acento grave, desfazendo a possibilidade de dupla interpretação: Ensino à distância. Aqui a regra tem a ver com a clareza, e o contexto em que a frase se insere, naturalmente, é decisivo na escolha do redator.

P.S. Neste dia 28 de março, saudações aos colegas revisores de texto do Brasil.

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Redação Física – Futebol a distância

Redação Física – Burrice ou parricídio

Orlando Nunes é graduado em Comunicação Social pela Universidade Federal do Ceará – UFC. Especializado em Sintaxe da Língua Portuguesa e Gramática Aplicada ao Texto. Foi professor da Campanha Nacional de Escolas da Comunidade – CNEC. Tem vasta experiência em revisão gramatical e estilística de texto em agências de Publicidade e empresas jornalísticas.

 

21 de março

 
Redação Física

Redação Física – Futebol a distância

 

Por Orlando Nunes

Vou criar um curso de futebol a distância, para alunos de todas as idades, abaixo ou acima do peso, míopes ou de larga visão empreendedora. Gol de placa, sou experiente.

Era repórter esportivo, mas vi que o bom negócio é ser professor. Professor de futebol, que tem sempre uma resposta na ponta da língua. Professor de português é uma piada.

Gravei na memória a última entrevista jogada debaixo do tapete verde. Depois dela resolvi abandonar os gramados. Solta VT:

No vestiário:

– E aí, professor, o que houve com o time?
– Um clássico se decide nos detalhes.
(Sério?)

Tomamos um gol bobo, de bola parada.
(Isso me faz nostálgico. O melhor marcador de gols bobos que eu vi jogar se chamava Zico, ele jogava num time de camisas rubro-negras. Eu ficava bobo também vendo o cara fazendo tantos gols bobos. E agora o que eu faço nas tardes de domingo?)

– Como recuperar a equipe?
– Não tem nada perdido ainda, vamos levantar a cabeça.
(Aí dentro)

– O senhor estava bem nervoso, não?
– A gente trabalha a semana inteira, e vem um árbitro desses estragar tudo!?
(Por que marcam jogos para o domingo, dia do descanso, meu Deus?)

– O professor foi expulso por reclamação?
– Eu não falei nada, pô, e ele me deu um cartão vermelho? Palhaçada.
(A injustiça é muda)

– Foi um jogo com muitas faltas.
– O adversário cansou de bater, mas o cidadão de preto só marca contra a gente.
(A justiça é cega)

E se eu falar alguma coisa do juiz ainda vão querer me processar.
(Fala da mãe dele…)

– Por que o professor invadiu o campo?
– Eu fui cumprimentar o árbitro, que atuação!.
(…)

Mas esse senhor era pra ser preso.
(…)

– O senhor continua no comando da equipe?
– É claro que sim, o senhor tem algo contra?.
(Me inclua fora)

– O grupo não está rendendo…
– Criamos várias oportunidades de gol, mas a bola não quis entrar.
(Alguém está trocando as bolas)

– E quem não faz…
– O adversário fez o gol e se retrancou, abdicou do jogo.
(Também vou abdicar)

– O professor vai pedir reforço?
– É preciso qualificar o plantel, não creio em milagre.
(Homem de pôr café. Tomei um expresso e não voltei mais)

Os professores de futebol têm um discurso padrão para tudo, meu curso a distância será diferente. Na primeira aula, por exemplo, já alerto os goleiros:

As piores bolas são as que não querem entrar.

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Redação Física – Burrice ou parricídio

Redação Física – Aquela crase

Redação Física – Vou não, posso não

Orlando Nunes é graduado em Comunicação Social pela Universidade Federal do Ceará – UFC. Especializado em Sintaxe da Língua Portuguesa e Gramática Aplicada ao Texto. Foi professor da Campanha Nacional de Escolas da Comunidade – CNEC. Tem vasta experiência em revisão gramatical e estilística de texto em agências de Publicidade e empresas jornalísticas.

 

14 de março

 
Redação Física

Redação Física – Burrice ou parricídio

 

Por Orlando Nunes

“O mundo era tão recente que muitas coisas careciam de nome e para mencioná-las se precisava apontar com o dedo. Todos os anos, pelo mês de março, uma família de ciganos esfarrapados plantava a sua tenda perto da aldeia e, com grande alvoroço de apitos e tambores, dava a conhecer os novos inventos.”
Cem Anos de Solidão – Gabriel García Márquez

Desde a aldeia ficcional de Macondo à aldeia global de nossos dias, as coisas carecem de nome, e cada nome formado pode adquirir novos sentidos no decorrer do tempo.

Mas sempre vamos apontar com o dedo, mesmo quando desnecessário.

O patriarca José Arcadio Buendía não confiava na singularidade da palavra dos ciganos, muito embora o cigano Melquíades fosse um homem sábio e de palavra.

O procurador Cléber Eustáquio desconfia da pluralidade de sentidos das palavras de um lexicógrafo, muito embora o lexicógrafo Houaiss fosse um homem de muitas palavras.

Melquíades disse que a formidável lupa vendida ao patriarca dos Buendías não seria eficaz se usada como arma de guerra.

Mas José Arcadio desconfia de suas palavras

Houaiss disse que a formidável lupa de um lexicógrafo não seria eficaz, se ignorada fosse a diversidade de acepções de uma palavra.

E a limpeza de dicionários põe certas acepções sob o tapete.

Cem anos de solidão

O Ministério Público, em pleno século 21, não deveria se indispor contra o registro das diversas acepções de certos vocábulos presentes nos dicionários.

Dicionários não inventam nada, refletem apenas.

O que se pensa e se diz sobre ciganos (e sobre mais de duzentas mil palavras) não está no gibi. Que o diga o Houaiss, nosso maior e melhor dicionário, que não inventou nada.

E olhe que o maior de todos os dicionários não registra mais que um terço das palavras existentes, fabricadas pelo engenho contínuo dos falantes da língua portuguesa.

O polimento politicamente correto contra a “sujeira” dos dicionários é um lixo.

Um dicionário existe para registrar palavras e suas diversas acepções, colhidas não do gênio mais ou menos preconceituoso do dicionarista, mas de sua observação apurada dos variados empregos atribuídos pelos usuários do idioma ao longo do tempo.

Não se trata, portanto, da defesa deste ou daquele emprego, desta ou daquela acepção, mas apenas de seu registro, do registro do emprego observado em cem anos de solidão.

Censurar o dicionário Houaiss pelo registro de acepções politicamente incorretas

1 – é como censurar um compêndio da Medicina que registra a existência (apocalíptica?) de mil e uma bactérias imbatíveis (supervilões da espécie);

2 – é como censurar livros de História por registrar atrocidades praticadas pelos seres humanos (?) desde que o mundo é mundo;

3 – é como tapar o sol com uma peneira;

4 – é como proteger o leitor do conteúdo cortante dos livros, porque eles guardam os segredos e os pecados da terra (obscurantismo).

É pra ficar de quatro

Se um dicionário traz dez acepções de uma palavra, são dez usos observados, e não a defesa ou a prescrição de nenhum deles. Gritai isso, ó pai dos burros.

Cortar o Houaiss da prateleira: burrice ou parricídio?

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Redação Física – Vou não, posso não

Redação Física – Vou-me embora pra Bahia

Orlando Nunes é graduado em Comunicação Social pela Universidade Federal do Ceará – UFC. Especializado em Sintaxe da Língua Portuguesa e Gramática Aplicada ao Texto. Foi professor da Campanha Nacional de Escolas da Comunidade – CNEC. Tem vasta experiência em revisão gramatical e estilística de texto em agências de Publicidade e empresas jornalísticas.

 

22 de fevereiro

 
Redação Física

Redação Física – Aquela crase

 

Por Orlando Nunes

Escrevi na coluna anterior: “Este ano não vai ser igual aquele que passou”. O que faltou, pergunto ao leitor sacador, que responderá na ponta da língua: “Um acento grave”.

Quarta-Feira de Cinzas é uma data pra lá de propícia para batermos um papo sobre o acento grave indicativo de crase, não conheço nada melhor para curar ressaca.

Aos fatos:

Em noventa por cento dos casos, digamos, a crase é resultado da fusão de um A preposição regida pelo verbo com um A artigo que antecede um substantivo feminino.

Em decorrência dessa estatística, não é raro ouvir aqui e ali que a crase é proibida antes de palavras masculinas. Na verdade não há proibição, mas uma situação óbvia.

Se não usamos o artigo A antes de palavras masculinas, consequentemente falta um dos ingredientes necessários para a concretização do fenômeno da crase (A+ A).

Voltemos à frase (olhe a crase aí, gente, resultante da fusão da preposição A, pedida pelo verbo “voltar”, com o artigo A, que antecede a palavra “frase”) da semana passada.

“Este ano não vai ser igual aquele que passou.”

Conforme observamos no início da coluna de hoje, faltou o acento grave, a marca gráfica da crase. Este ano não vai ser igual àquele que passou (A + A).

É bom lembrar que essa crase (àquele) não é uma exceção à “regra” da proibição de crase antes de palavras masculinas. Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa.

Diferentemente da maioria dos casos de crase que, vamos repetir, ocorre da fusão da preposição A com o artigo A. agora estamos diante de distinta fusão de AA.

A crase também ocorre quando a preposição A (esta nunca pode faltar) se encontra com o A inicial do pronome demonstrativo aquele e suas flexões (aqueles, aquela(s), aquilo).

“Os documentos apreendidos serão encaminhados àquele país”, “Fez um comentário àquilo como se fosse algo mais séria”, “Dirigiu-se àquelas pessoas só para agradecer”.

Há um modo prático de averiguar a ocorrência ou não de crase com o pronome demonstrativo “aquele” e suas flexões. Vamos a ele, portanto.

Primeiro passo: troque “aquele” (ou flexões) por “esse” (ou flexões). Segundo passo, observe se há necessidade de empregar a preposição A antes do pronome “esse”.

Se houver um A antes de “esse” (ou “esses”, “essa(s)”, “isso”), saiba que este A é uma preposição e que com o pronome “aquele” (ou flexões) ocorrerá o fenômeno da crase.

Vamos testar a dica com dois exemplos.

1 – “No carnaval estive em Guaramiranga. Posso dizer que aqueles dias serão inesquecíveis.” Agora, o primeiro passo, trocar “aquele” por “esse”:

“No carnaval estive em Guaramiranga. Posso dizer que esses dias serão inesquecíveis.” Perceba que não houve necessidade da preposição A antes do pronome “esses”.

Isso quer dizer que, na frase original, com o pronome “aqueles”, não ocorre a crase.

2 – “Quero dizer aqueles que me indicaram a serra como opção de fuga do mela-mela do litoral que estou verdadeiramente agradecido.” Vamos novamente à troca:

“Quero dizer a esses que me indicaram a serra como opção de fuga do mela-mela do litoral que estou verdadeiramente agradecido.” Observe a necessária da preposição A.

Isso quer dizer que, na frase original, com o pronome “aqueles”, ocorre a crase:

“Quero dizer àqueles que me indicaram a serra como opção de fuga do mela-mela do litoral que estou verdadeiramente agradecido”.

Em tempo: Este ano não vai ser igual àquele que passou.

E o carnaval passou. Que venha a Quaresma.

Amém.

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Redação Física – S.O.S. Oscar

Orlando Nunes é graduado em Comunicação Social pela Universidade Federal do Ceará – UFC. Especializado em Sintaxe da Língua Portuguesa e Gramática Aplicada ao Texto. Foi professor da Campanha Nacional de Escolas da Comunidade – CNEC. Tem vasta experiência em revisão gramatical e estilística de texto em agências de Publicidade e empresas jornalísticas.

 

17 de fevereiro

 
Redação Física

Redação Física – Vou não, posso não

 

Por Orlando Nunes

“Mela-mela” pode causar perda da visão, afirma especialista – Da Redação

Já estava tudo pronto para a viagem rumo ao meu mela-mela lá no Aracati – maisena (falsificada, bem se vê, a original vem com z, por isso dizem que a caixa é amarela, amarela de vergonha), mostarda, tinta guache –, quando bati a vista no alerta do presidente da sociedade cearense de oftalmologia veiculado aqui no Jangadeiro Online.

Em mela-mela medicinalmente saudável, do pescoço pra baixo vale tudo, mas nos olhos é golpe baixo, afinal pimenta no dos outros, no fundo, no fundo, não é nenhum refresco.

Este ano não vai ser igual aquele que passou.

Anos atrás (sem trocadilho), tive um princípio de úlcera de córnea. O doutor examinou meu olho vermelho-maconha, soltou um preocupante “Chiiiiiiiiiiiiii” na minha cara e prescreveu mil e uma noites de colírios fortes, alucinógenos.

Segui passo a passo o caminho determinado, mas… nada.

Voltei para o consultório: “Chiiiiiiiiiiiiiiiiiiii”, é mau-olhado, vamos mudar a medicação. Comprei a nova medicação.

Os remédios já custavam nessa época os olhos da cara.

Mas, para minha felicidade, o segundo tiro acertou bem na praga da mosca-branca, a infecção foi mortalmente atingida. Com os zoim novim em foia, voltei pro doutor.

Aliviado, ele me confessou que temeu pelo pior.

Tinha medo de tratar-se de uma certa bactéria Carniceirae motosserra dumafiga que penetra na córnea e sai fazendo estrago globo adentro.

Noutras palavras, numa linguagem mais popular, a atrevida entra pelo zói de riba e só se dá por satisfeita quando sai pelo de baixo, com os dedim em vê de vitória.

Alalaô, ôôô, ôôô.

Bactéria, nunca mais. Não vou mais pro mela-mela porcaria nenhuma. Adeus, Aracati. Desarruma a mala aí. Vou não, posso não, meu doutor não deixa não.

Troca tudo agora, neste carnaval vou pro festival de jazz & blues em Guaramiranga.

O Danilo Caymmi vai estar lá, talvez até cante aquela canção do saudoso pai dele, é paidégua: “É doce morrer no mar / Nas ondas verdes do mar…”. Olho vermelho jamá..

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Redação Física – Mais um parto em viatura do Ronda

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08 de fevereiro

 
Redação Física

Redação Física – Vou-me embora pra Bahia

 

Por Orlando Nunes

Hoje apresento uma velha dica de guerra: cuidado com as maiúsculas. Sim, as redações estão repletas de letras maiúsculas desnecessárias, e, se o leitor estiver pensando que é mania de grandeza, saiba que não é, trata-se de puxa-saquismo mesmo.

Quer um exemplo, ou dois? Vamos lá.

Comecemos pela polícia, que não está pra brincadeira – camarada, hoje a Bahia é déjà vu; amanhã, estão comentando, o Rio será déjà vu. E o Carnaval Sifu.

Aqui entre nós, leitor, e já correndo o risco de fugir do tema proposto, permita-me mais dois dedos de prosa e circunlóquio, e que a banca do Enem não nos ouça ou leia.

Eu nunca tinha vivido uma epidemia de greve tão devastadora. Claro, nos meus velhos tempos de UFC (a academia, não o ringue), passei por poucas e boas, paralisações aqui e ali – de estudantes, de professores, de servidores – mas, não sei se porque era mais jovem e, de certo modo, mais esperançoso, o fato é que não eram greves como as de hoje.

Hoje, quando leio no jornal que uma determinada categoria ameaça cruzar os braços, já experimento os estranhos calafrios do medo. Mas por quê? Não sou funcionário público, não sou fura-greve, não sou pelego, não tenho nenhum poder, não sou governador de nada, não sou sequer aspone, não sou o louro belo nem nada.

Seja como for, ultimamente ando com medo de greve.

Não ando de ônibus (só a pé), e tenho medo de greve de motorista de busão; não tenho carro (a banca examinadora de vista decreta que não sei ler) e tenho medo da greve da AMC; não tenho muito medo de ladrão (um vem, pergunta diplomaticamente se tenho cigarro, digo que não, pergunta se tenho grana, celular, algum livro do Jorge Luis Borges ou a camisa do Messi, me chama de perna de pau, sobe na bicicleta e se vai, em paz) e tenho medo de greve de polícia; a saúde, me parece, vai bem, obrigado (o último resfriado eu ainda era solteiro, passara a noite num colchão d’água com uma namorada e, em seguida, cinco dias de cama com febre alta e uma moleza avermelhada pelo corpo.

O doutor diagnosticou dengue, o Aedes aegypti tem terna tara por colchão d’água) e morro de medo de greve de médico.

Ora, mas que grande bobagem. Não pode haver medo maior que o medo de fugir do tema no Enem, isso vai lhe valer uma nota zero bem redonda no meio da cara pintada.

Então voltemos ao início. A tese a ser defendida é a do excesso de maiúsculas desnecessárias. Veja bem, se Polícia Militar, ou Polícia Civil, ou Polícia Federal são palavras escritas merecidamente com iniciais maiúsculas, quando a referência é genérica, contudo, devemos economizar as caixas-altas, sem medo ou puxa-saquismo.

Assim, escrevemos “Lugar de jornalista e de polícia é na rua”, e não “Lugar de jornalista e de Polícia é na rua”. O mesmo raciocínio vale para governo: “O Governo do Estado do Ceará divulgou nota à imprensa”, mas “O governo ameaçou cortar pontos”.

E, por falar em pontos, não teve jeito, misturei alhos com bugalhos, minha redação ficou sem pé nem cabeça, a banca examinadora do Enem não vai perdoar, minha única esperança é o Oscar, eu quero rever minha redação, vou à Justiça (caixa-alta).

Justiça Já. E nem quero saber, ou entro em greve por tempo indeterminado.

Vou-me embora pra Bahia,

Lá sou amigo do rei Jaques

Lá tenho a mulher que eu quero

No colchão d’água que escolherei.

- Então, doutor, não é possível tentar um acordo?

- Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.

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Orlando Nunes é graduado em Comunicação Social pela Universidade Federal do Ceará – UFC. Especializado em Sintaxe da Língua Portuguesa e Gramática Aplicada ao Texto. Foi professor da Campanha Nacional de Escolas da Comunidade – CNEC. Tem vasta experiência em revisão gramatical e estilística de texto em agências de Publicidade e empresas jornalísticas.

 

01 de fevereiro

 
Redação Física

Redação Física – S.O.S. Oscar

 

Vida longa ao Enem. Viva a redação do Enem. Preciso rever minha redação do Enem.

Os revisores de texto (não os eletrônicos, que são obviamente limitadíssimos, mas os de carne e osso, bem mais resistentes a vírus e vacilos) têm emprego para mais um século.

Quer saber por quê? Digo-lhe: alguém tem uma ideia, leva essa ideia para o papel (o papel vai acabar antes do revisor), faz um grande trabalho, e tal, e vira, e mexe, mas tem que haver também um sujeito para fazer o trabalho sujo. Esse cara é o copidesque.

O cara que não é o cara. O copidesque não pode aparecer na história, se isso acontece é porque algo deu em merda. Explico: quando o revisor de texto não aparece é sinal de que tudo funcionou a contento. Nenhum leitor deu de cara, por exemplo, com um “c” ou “sc” quando deveria ter encontrado um “s” (compreensível); nenhum internauta deparou-se com um “c” ou “ç” no lugar de “ss” (idiossincrasia). Todos os acentos deram conta do recado, o agudo, o circunflexo, o grave. Não houve discordância quanto à concordância de um verbo ser ou haver que seja. Não houve conspirações contra a regência, mesmo que toda regência, por mais vitalícia que seja, seja sempre provisória.

Nada, nenhum boletim de ocorrência contra sequer uma dessas bobagens ortográficas ou de sintaxe, nem contra algo mais sério, feito fuga do tema ou total desprezo aos modalizadores do texto. Quando, enfim, ninguém recorre ao procurador Oscar Costa Filho para que ele acione a Justiça, quando nenhum redator deseja rever a redação do Enem, justiça seja feita: viva o revisor, e que ninguém perceba sua existência.

Para que serve um revisor senão para deixar em paz um redator? Aqui jaz um revisor.

Todo professor de redação do ensino médio deve alertar sua turma. Começa de maneira terna, para não estourar a boiada. Deve dizer algo como “Galera (e professor tem coragem de usar termo tão tosco?), tenho uma boa e uma má notícia”. E o docente apresenta logo a má notícia: “Até a prova do vestibular, não basta ser redator, tem de ser revisor”. É isso, e a boa notícia: “Só até a prova do Enem, depois, quando cada um de vocês voltar a ser uma pessoa normal, se resolver a escrever um livro (depois, é claro, de plantar uma árvore e de ter um filho, ou filha, PT, PC, não necessariamente nessa ordem ou partido), de ficção ou de fricção, pode ou deve contratar um revisor.

Mas (no vestibular) redator bota banca (examinadora). Não vou assistir o/ao Oscar.

Fui. Volto noutra quarta.

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25 de janeiro

 
Redação Física

Redação Física – Mais um parto em viatura do Ronda

 

Por Orlando Nunes

Toda candidato a celebridade quando entrevistado costuma fazer referência ao berço, às origens. Um ator, por exemplo, diz que nasceu praticamente num palco, um jogador de futebol nasceu no gramado, um jornalista nasceu dentro da redação. Pois estou bem otimista com essa ordem de coisas, um sinal animador de melhor segurança no futuro. Ultimamente tem nascido muita gente nos carros do Ronda do Quarteirão.

– E aí, capitão, e a vitória da categoria?

– Nasci numa Hilux.

Só os poetas amam de verdade

Drummond amava o Atlético, não, Drummond amava o Cruzeiro, não, Drummond amava Itabira, amava a poesia, na verdade, ela me ama, ela não me ama, ela me ama…

Jackson de Carvalho amava o Fortaleza de verdade.

Mas a poesia no gramado hoje é outra

Geraldo amava o Ceará que amava Guto

que amava o Fortaleza que amava Angelin que amava o Flamengo

que não amava ninguém

Geraldo foi para o Fortaleza, Guto vai para o Ceará

Angelim que ama demais faz jogos beneficentes no interior

Em contrapartida o Flamengo assedia Wagner Love com capital

que não tinha entrado na história.

Redação Física

“O ministro defende que a lei seja observada.” No meu tempo os juízes não defendiam que, costumeiramente eles defendiam a observação da lei.

“O encontro ocorrerá de 8h às 10h no ginásio poliesportivo da cidade.” Fique atento à estrutura correlativa (?) da crase, escreva, portanto, das… às…, ou seja, o encontro ocorrerá das 8h às 10h no ginásio poliesportivo da cidade.

O encontro durará (eta nóis!) de duas a três horas no ginásio poliesportivo da cidade. Nesta segunda estrutura, só temos preposições, de–a, e a referência não é mais às horas do relógio (existe outra?), mas à duração do tempo (falou um quilo…),

Se o amigo não entendeu nada, a culpa é da tia do seu colégio. Mas vou lhe oferecer uma nova oportunidade assim mesmo. Se alguém lhe perguntar que horas algo ocorreu, não se esqueça de dar paralelismo à sua resposta – artigo e preposição à esquerda e artigo e preposição à direita. O evento ocorreu DAS (de+as) 11h AO (a+o) meio-dia.

Logo, não me venha mais com essa história de DE 11h AO meio-dia, DE 9h ÀS 10h, ou você me deve um artigo. Por falar nisso, o de hoje acaba aqui.

Chega de crase por hoje. Seja bem-vindo G-10, boa sorte, Guto.

Até a próxima.

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Redação Física – Delmira do Buraco da Jia

Redação Física – Bandido workaholic

Redação Física – A casa é sua

Orlando Nunes é graduado em Comunicação Social pela Universidade Federal do Ceará – UFC. Especializado em Sintaxe da Língua Portuguesa e Gramática Aplicada ao Texto. Foi professor da Campanha Nacional de Escolas da Comunidade – CNEC. Tem vasta experiência em revisão gramatical e estilística de texto em agências de Publicidade e empresas jornalísticas.

 

18 de janeiro

 
Redação Física

Redação Física – Klonaram o karro da Katiúsia

 

Por Orlando Nunes

Carro se confunde com karro. Letra não se confunde com fonema. Este é realidade acústica, som da fala que distingue uma palavra de outra; aquele, realidade gráfica, desenho, tentativa de representação visual do fonema. Cinto e sinto, p.ex., são palavras iniciadas pelo mesmo fonema e por letras distintas. Em “Clonaram o carro da Katiúsia” temos uma sequência de fonemas idênticos, isto é, klonaram o karro da Katiúsia.

Cassados são caçados

O primeiro passo já foi dado. Prefeitos cassados vão ter de reembolsar o TRE os valores gastos pelo tribunal para a realização das eleições suplementares. Segundo passo: os prefeitos têm de ser caçados um a um para o recebimento da conta. Piada de português: encontre a partícula apassivadora na sentença Procura-se prefeito para pagar o pato.

Sujeito virtual

Greve não se resolve com palavras. Para o vice, o governador não falou, resolveu. O vice também sempre representou o governo em solenidades importantes (pausa para uma conjunção conclusiva), portanto as coisas andam normalmente no Estado. Concordo em gênero, número e caso. Esse rigor da gramática tradicional de que o vice é um sujeito oculto é coisa ultrapassada, do tempo da política dos governadores. Hoje não há mais sujeito oculto, ele é chamado de elíptico, com uma forte tendência para virtual.

Operações atípicas

“Movimentações atípicas não são transações irregulares e, sim, operações financeiras que fogem dos padrões da norma bancária e do sistema nacional de prevenção de lavagem de dinheiro.” Trocando em miúdos: dinheiro sujo não se lava em casa.

Superagente da passiva

Hoje só uma pessoa poderia impedir Waldemir Catanho de concorrer à sucessão municipal de Fortaleza, ele próprio. A escolha do candidato do PT passa pela Gramática Catanho da Política Petista. Caso Catanho diga “Sim, prefeita, aceito a indicação, serei o candidato de vossa Voz Ativa”, PT saudações. Mas o secretário de Articulação é o mais mineiro de todos os cearenses. Bom de bastidor, pode preferir manter-se como estratégico Agente da Passiva, e a pré-candidatura será descartada por Catanho.

Sair ou entrar dá no mesmo

Faço absoluta questão de rever minha redação do Enem, pois tenho a ligeira impressão de que uma banca examinadora apressada possa ter confundido minhas vírgulas ou meias palavras com indecisão política ou fuga do tema proposto, quando elas somente retratam uma notável estratégia de comunicação partidária: sim, saio como candidato.

Até a próxima.

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13 de janeiro

 
Redação Física

Redação Física – Delmira do Buraco da Jia

 

Por Orlando Nunes

Dona Delmira, da comunidade Buraco da Jia, zona oeste da Fortaleza, no Ceará, envia comovente e-mail a este escriba para que eu lhe tire uma casquinha da língua.

O e-mail:

Caro sr. Nunes, feliz ano novo! Escrevo para que o amigo me tire uma dúvida que vem me deixando enrolada faz bom tempo. É o seguinte: aqui no Buraco da Jia venho sendo assediada por dois desocupados que, se aproveitando de uma longa viagem de meu amado (ele é caminhoneiro), tentam tirar uma casquinha com esta que lhe escreve.

Coitados. Delmira no Buraco da Jia é sinônimo de fidelidade partidária. Assim sendo, e na disposição de amolecê-los, refiro-me, claro, aos dois devassos vizinhos do bairro, escrevia mensagem no facebook, do tipo “vão atentar o cão com reza, chifrudos”, mas travei de repente. Valei-me, gabaritado.

Devo dizer aos gaiatos: “um e outro me aborrecem” ou “um e outro me aborrece”? Responda-me, mestre, antes do carnaval findar, para que as cinzas da quarta-feira não virem estrumo nesta terra oca e fértil do Buraco da Jia. A fofoca já está nas ruas.

Respondo agora, dona Delmira, sem demora.

A concordância verbal com a locução um e outro é menos diabólica que a dupla que lhe inferniza o espírito, tenha certeza. Relaxe, querida, vamos à introdução.

Inicialmente, daremos nomes aos bois.

Com finalidade exclusivamente didática, chamemos os dois intrépidos buraco-jienses de Chico e Carvalho. Agora, sim, podemos entrar de vez no ponto xis de dona Delmira.

A expressão um e outro normalmente vem assediada de um verbo no plural:

“Chico e Carvalho continuam assediando dona Delmira Um e outro perdem a compostura”.

O verbo no singular também dá conta do recado: “um e outro perde a compostura”.

A estrutura acima pode vir acasalada com um substantivo, este, porém, sempre no singular: “um e outro rapaz perdem (ou perde) a compostura”.

Além da entrada autorizada do substantivo singular (rapaz), poderíamos acrescentar um adjetivo à estrutura, e, neste caso, o plural se impõe ao modificador recém-chegado:

“Um e outro rapaz galanteadores assediam (ou assedia) dona Delmira do Buraco da Jia”.

É isso, dona Delmira. Feliz 2012, feliz carnaval, e que seu amado retorne logo.

P.S. Faça como dona Delmira. Dúvidas, digite zero22senior@gmail.com

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Redação Física – A casa é sua
Redação Física – Cães, Carros e Calçadas

Orlando Nunes é graduado em Comunicação Social pela Universidade Federal do Ceará – UFC. Especializado em Sintaxe da Língua Portuguesa e Gramática Aplicada ao Texto. Foi professor da Campanha Nacional de Escolas da Comunidade – CNEC. Tem vasta experiência em revisão gramatical e estilística de texto em agências de Publicidade e empresas jornalísticas.

 
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