Por Orlando Nunes
Hoje apresento uma velha dica de guerra: cuidado com as maiúsculas. Sim, as redações estão repletas de letras maiúsculas desnecessárias, e, se o leitor estiver pensando que é mania de grandeza, saiba que não é, trata-se de puxa-saquismo mesmo.
Quer um exemplo, ou dois? Vamos lá.
Comecemos pela polícia, que não está pra brincadeira – camarada, hoje a Bahia é déjà vu; amanhã, estão comentando, o Rio será déjà vu. E o Carnaval Sifu.
Aqui entre nós, leitor, e já correndo o risco de fugir do tema proposto, permita-me mais dois dedos de prosa e circunlóquio, e que a banca do Enem não nos ouça ou leia.
Eu nunca tinha vivido uma epidemia de greve tão devastadora. Claro, nos meus velhos tempos de UFC (a academia, não o ringue), passei por poucas e boas, paralisações aqui e ali – de estudantes, de professores, de servidores – mas, não sei se porque era mais jovem e, de certo modo, mais esperançoso, o fato é que não eram greves como as de hoje.
Hoje, quando leio no jornal que uma determinada categoria ameaça cruzar os braços, já experimento os estranhos calafrios do medo. Mas por quê? Não sou funcionário público, não sou fura-greve, não sou pelego, não tenho nenhum poder, não sou governador de nada, não sou sequer aspone, não sou o louro belo nem nada.
Seja como for, ultimamente ando com medo de greve.
Não ando de ônibus (só a pé), e tenho medo de greve de motorista de busão; não tenho carro (a banca examinadora de vista decreta que não sei ler) e tenho medo da greve da AMC; não tenho muito medo de ladrão (um vem, pergunta diplomaticamente se tenho cigarro, digo que não, pergunta se tenho grana, celular, algum livro do Jorge Luis Borges ou a camisa do Messi, me chama de perna de pau, sobe na bicicleta e se vai, em paz) e tenho medo de greve de polícia; a saúde, me parece, vai bem, obrigado (o último resfriado eu ainda era solteiro, passara a noite num colchão d’água com uma namorada e, em seguida, cinco dias de cama com febre alta e uma moleza avermelhada pelo corpo.
O doutor diagnosticou dengue, o Aedes aegypti tem terna tara por colchão d’água) e morro de medo de greve de médico.
Ora, mas que grande bobagem. Não pode haver medo maior que o medo de fugir do tema no Enem, isso vai lhe valer uma nota zero bem redonda no meio da cara pintada.
Então voltemos ao início. A tese a ser defendida é a do excesso de maiúsculas desnecessárias. Veja bem, se Polícia Militar, ou Polícia Civil, ou Polícia Federal são palavras escritas merecidamente com iniciais maiúsculas, quando a referência é genérica, contudo, devemos economizar as caixas-altas, sem medo ou puxa-saquismo.
Assim, escrevemos “Lugar de jornalista e de polícia é na rua”, e não “Lugar de jornalista e de Polícia é na rua”. O mesmo raciocínio vale para governo: “O Governo do Estado do Ceará divulgou nota à imprensa”, mas “O governo ameaçou cortar pontos”.
E, por falar em pontos, não teve jeito, misturei alhos com bugalhos, minha redação ficou sem pé nem cabeça, a banca examinadora do Enem não vai perdoar, minha única esperança é o Oscar, eu quero rever minha redação, vou à Justiça (caixa-alta).
Justiça Já. E nem quero saber, ou entro em greve por tempo indeterminado.
Vou-me embora pra Bahia,
Lá sou amigo do rei Jaques
Lá tenho a mulher que eu quero
No colchão d’água que escolherei.
- Então, doutor, não é possível tentar um acordo?
- Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.
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Orlando Nunes é graduado em Comunicação Social pela Universidade Federal do Ceará – UFC. Especializado em Sintaxe da Língua Portuguesa e Gramática Aplicada ao Texto. Foi professor da Campanha Nacional de Escolas da Comunidade – CNEC. Tem vasta experiência em revisão gramatical e estilística de texto em agências de Publicidade e empresas jornalísticas.